LESBOS

Este conto é uma colagem dos seguintes contos de de Anais Nin: "Litlh", "Elena", "A mulher velada" e "Mariana", no livro "Delta de Vénus". Autor: Pedro nascimento

Primeira parte
Segunda parte

ilith nunca tivera muito prazer na cama com o marido e para disfarçar, fazia-se passar por frígida. Era muito impulsiva e tinha frequentes ataques de nervos mas o marido quase nunca perdia a cabeça e olhava para ela com indulgente doçura. Reagia a todas essas cenas com paciência e bom humor inalteráveis. Os tempestuosos acessos de raiva de Lilith só a perturbavam a ela, pois o marido mantinha-se sempre á parte.
Talvez fosse essa a melhor imagem do seu desencontro sexual. Ele esquivava-se a todos os desafios e ataques violentos que ela por vezes lhe lançava; ficava indiferente a todo o seu teatro afectivo e ás suas zangas  e embirrações.
  Se ele tivesse sabido responder aos seus desafios e entrar no jogo que ela pretendia fazê-lo jogar, talvez assim ela tivesse algum prazer com ele na cama. Mas o marido de Lilith ignorava por completo todos os preliminares do desejo, os estimulantes de que certas naturezas primitivas necessitam, e assim, em vez de a começar por beijar e acariciar lentamente com ternura, punha-se em cima dela baixava-lhe as cuecas, afastava-lhe as pernas e entrava dentro dela ficando ali a agitar-se a agitar-se como se fosse um cavaleiro montando uma mula a toda a velocidade.  E no final, quando caia para o lado exausto, e adormecia logo, Lilith sentia-se mais uma vez violentada. Suja.
Um domingo á tarde, em que o marido fora assistir a mais um jogo de futebol com os amigos dos copos e das farras, Lilith decidiu convidar uma amiga para irem ao cinema. Sentada no escuro, não conseguia sequer fixar o ecrã. Tinha a cabeça num verdadeiro caos. Sentou-se, muito tensa, na beira da cadeira, tentando concentrar-se nas imagens que corriam no ecrã. E de repente, sem entender muito bem porquê, ficou em êxtase perante a imagem de uma mulher jovem e muito bela que acariciava o seu próprio corpo todo nu... Deu um pulo quando reparou que estava com as pernas abertas e a saia arregaçada acima dos joelhos. Não se lembrava de jamais se ter sentado no cinema numa posição daquelas. Achou extremamente obsceno estar assim para ali de pernas abertas e reparou que as pessoas da fila da frente podiam perfeitamente espreitar-lhe por baixo da saia e regalar-se á vista das suas cuecas novas, das suas ligas novas, que comprara precisamente naquele dia.
Tudo parecia conspirar para um escândalo. Ela própria já devia estar a prever intuitivamente tudo aquilo, quando fora comprar umas cuecas arrendadas e umas ligas pretas, que tão bem condiziam com as suas pernas lisas de bailarina.
Fechou as pernas num gesto de raiva. Estava a pensar que, se um homem a visse assim, a ia olhar não como uma mulher atacada pelo desejo mais natural e instintivo, e sim,  como se ela fosse "uma puta". Como se uma mulher só por ser mulher, não tivesse o mesmo direito a ter desejos...

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